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		<title>Literature Network Forums - Blogs - El Carmo</title>
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			<title>Viagem dentro de mim</title>
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			<pubDate>Wed, 18 May 2011 01:11:00 GMT</pubDate>
			<description>Relaxa cara eu não vou te matar teria dito eu, ao gordinho que me pediu para não matá-lo. Ele se cagou todo quando botei a arma em cima dele. Você...</description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote class="blogcontent restore">Relaxa cara eu não vou te matar teria dito eu, ao gordinho que me pediu para não matá-lo. Ele se cagou todo quando botei a arma em cima dele. Você não é o meu. É nenhuma, meu rei. Queria apenas fazer medo, mostrar que vocês todos são uns cagões. Todo mundo pedindo arrego, mas na hora de pegar no meu pé, todo mundo era o porreta. Juro que não queria isto. Nunca pensei nisto, quando a gente vê já fez. Estou aqui, nesta pedra gelada. Cadê  alguém para me buscar? Nem parente, nem derente.  Vergonha? Quando deviam ter, não tiveram. Agora todo mundo é bonzinho, só eu sou monstro. Pensam que não sofri por isto? Não sou melhor, nem pior que os outros, só não tive as mesmas chances. Não reclamava de nada. Iria adiantar? Até para reclamar a gente tem de ter jeito, senão o resultado será muito pior. Agora inventam coisas sobre mim. Põem em minha boca palavras que nunca disse. Vasculham minha casa, como se fosse um cão danado. Quando estava só ninguém me visitava. Até minhas memórias queimaram, esconjurado estou, famoso não. Buscam razões onde não as podem encontrar. A mídia ganha dinheiro às minhas custas, enquanto não me compram nem uma flor de jasmim para adoçar o ar que me envolve. O que sinto é muito frio nos ossos e na alma que se não partiu, inda atrelada a meu corpo virgem e sedento de amor e compreensão. Anátema. Uns nascem para brilhar e brilham ofuscando outros que se debatem para sair da escuridão. Não posso dizer que é injustiça, porque ainda não compreendi as leis do mundo, sim muito doloroso é. Quando será que vêem me buscar. Sei que não volto mais, como ninguém jamais voltou. Ficam as obras, mas que me fizeram fazer? Manchei a imagem da família? Que família? Que imagem tem ela? Imagens do oprimido. Foi o que nos deixaram, enquanto alguns se banqueteiam na orgia e concupiscência. Não tenham medo, logo nos esquecem. O mundo vive de escândalos. Tudo é fugaz e superficial. Ninguém está interessado na essência. Tudo é vaidade. Os verdadeiros valores são até debochados. As pessoas se aproveitam da bondade e da inocência de alguns para explorá-las e humilhá-las. Não as levam a sério, não as respeitam como pessoa e ficam surpresas, indignadas quando estas se revoltam. Estou te estranhando, você nunca foi assim. O que? Queriam que se ficasse sempre a seus pés? Nunca se sabe como vamos responder a determinados estímulos. Talvez se soubessemos fosse pior. A maioria das pessoas nos desrespeitam, acham que somos uns idiotas, julgam-nos antecipadamente, superficialmente. Falsas, desleais e hipócritas, é o que elas são. Um dia verão, com surpresa e hipocrisia o que somos. Então surgirão heróis para serem louvados e decantados. Especialistas de coisa nenhuma aparecerão na mídia levantando teses e teorias para explicar nossos atos. Os meios de comunicação ganharão dinheiro à custa da miséria do mundo. Tudo uma mentira deslavada empurrada güela abaixo do populacho que a recebe num misto de medo e prazer. Não mais se respeita o diferente que é vilipendiado e humilhado por todos da maneira mais sádica possível. O sofrimento de alguns é o prazer de outros. Não pensam como a maioria, não são de seu grupo, os infiéis, os desleais, os falsos, os corruptos e os maus. Nunca me esqueço de um velho professor. Não lute contra esta corja, você será esmagado. Ainda continuo aqui nesta pedra fria. Os heróis lá fora recebem elogios e promoções. Chora a turba por meu ato. Matar-me-iam mil vezes, se pudessem. Matado já estava há muito tempo, só eles fingiam não ver. Espero que ninguém se mire no meu espelho, todos os caminhos levam a Roma, alguns são muito  dolorosos, como este. Sei que muitos superaram humilhações e abusos. Mas o homem não é um só. Cada homem é um  mundo. As pessoas não querem entender isto e se chocam com atos de revolta. Não me entendam, como uma justificação. É só reflexão. Não ponham a culpa em um livro. Não ponham a culpa em ninguem. Somos todos culpados. Só os desonestos negam isto. Quando cometem seus pecados, dão esmolas para serem absolvidos. Por que não vão aos hospitais? Ver o que se passa por baixo dos guarda-pós? Negócios mancham de sangue mãos e batas. Armas para  vida transmudadas em morte. Por que não enxergam os negócios feitos sob a toga? Cuja colheita é vendida sem o peso na balança? Agora sou vendido a preço de ouro. Brigam por mim, por uma informação. Quem melhor paga, mais informações recebe. É um leilão.Todos querem tirar uma lasquinha. Sem saber a minha história, fazem declarações de abjeção. Pura vaidade. Que não se aproveitem os maus para arrotar valentia contra mim. Já nada sou. Que não se aproveitem os maus para bradar aos quatro cantos palavras que não disse, incentivar a violência contra as minorias, os diferentes, os desiguais. E vocês, não tenham medo. De agora em diante eles, os omissos,  vão cuidar mais de vocês. Eles, que não faziam sua obrigação, que agora me abjectam, terão de fazer um exame de consciência, rever suas atitudes e voltar-se para seu mister, cumprir suas obrigações. Os hipócritas,  os analfabetos e esnobes saberão usar bem as palavras, saberão que a pirraça mata aos poucos, que a pirraça é mais cruel do que a ação de matar. Saberão que, a cada dia, pessoas estão sendo massacradas, sem que a sociedade, a imprensa façam o alarde que estão fazendo. Hoje sou monstro. Alguém veio em meu socorro quando estava sendo massacrado? Reflitam mais sobre meus atos e deixem de fazer espetáculo porque vocês só enganam os comedores de novelas,  futebol e carnaval, nunca os que realmente pensam, os que se preocupam com a humanidade, os que se preocupam com a felicidade do ser humano. Vocês só se preocupam em mostrar-se, vestir a melhor roupa para ir a um enterro, nunca em chorar os mortos a que estão enterrando. Suas lágrimas só escorrem em frente às câmaras, sós o choro vira sorriso. A conquista de  uma nota no jornal, de  um minuto de fama. Mundo vão. Todos se aproveitam de mim, até o papa, o Bento XVI, que bento nada é, sabido por todos ter sido nazista, quer aparecer. Por que ele não se ocupa da matança de inocentes nas guerras produzidas e incentivadas pelos seguidores de seu Deus? Com os milhões de crianças morrendo de fome no mundo? Por que ele não se preocupa em distribuir os bens de sua igreja aos necessitados? Sanguinário, assassino, monstro? Ninguem veio me buscar e agora estou sendo enterrado como um indigente, um qualquer. Vergonha de mim. Não têm vergonha quando sonegam imposto de renda, quando vendm o próprio corpo por um emprêgo, um pedaço de pão, uma manchete nos jornais. Não se envergonham quando vendem remédios falsificados, farinha de trigo em anticoncepcionais, fórmulas com dosagens de drogas inferior ao anunciado nas bulas, em suas caixas. Vejam se se envergonham de oferecerem propinas para obterem vantagens em tudo? Não têm vergonha quando compram coisas sabidamente furtadas ou roubadas, alimentando o crime e a violência. Hoje, mais do nunca estou triste. Enterraram-me. Arrastaram meu corpo, mesmo sabendo que não oferecia qualquer resistência, atiraram como bestaferas sobre mim. Sem o menor respeito pelo homem que sou. Açougueiros, enaltecidos como herois pela mídia que vomita diariamente suas fezes para o pobre homem que só cu tem para cagar e boca para devorar as migalhas que se lhes atiram os donos do mundo. Pobre homem, como fostes enganado pelos séculos além. Sofrestes tu quando eras mutilado no Congo pelos asseclas de Leopoldo II  da Bélgica em troca de borracha? E tu Patrice Lumumba, sofrestes quando fostes assassinado em 1961, por ordem de Eisenhower, presidente americano? Sofrestes quando te amarraram na traseira de um caminhão e te levaram até Leopoldville? Sofrestes quando te executaram na presença do traidor Tschombe? Sofrestes tu quando o satânico Soete exumou teu corpo e jogou ácido, tocando fogo depois, para que não restasse de ti qualquer vestígio?</blockquote>

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			<dc:creator>El Carmo</dc:creator>
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			<title>Em Busca de Um Tema ou Um Tema à Procura de Um Autor.</title>
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			<pubDate>Sat, 09 Apr 2011 06:38:52 GMT</pubDate>
			<description>Não se sabe ou não me lembro bem como tudo começou. Lembro-me agora de estar numa ampla sala de um tribunal com alguns juízes ou desembargadores que...</description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote class="blogcontent restore">Não se sabe ou não me lembro bem como tudo começou. Lembro-me agora de estar numa ampla sala de um tribunal com alguns juízes ou desembargadores que se reuniriam para julgar um processo. Era um caso rumoroso, do qual a cidade toda falava. Juro que não me recordo qual a questão, mas prometo que se me lembrar, antes de terminar este relato, eu o direi, pois, embora não seja fominha de realismo, como pretendem os jovens escritores, há certas curiosidades que o leitor gostaria de saber e não se pode escrever sem se satisfazer um mínimo ao leitor, sob pena de ser jogado no lixo, na pubele, como dizem os franceses, (eles escrevem poubele), antes mesmo de se vencer o primeiro capítulo. Mas, o certo é que o tribunal se instalava em uma ala de um prédio adonde funcionava também um clube chique, de elite. O desembargador sorteado para relatar o processo fazia parte da oposição e se esperava que se julgasse a contenda contra os interesses do governo, pois muitos já estavam propensos a julgar com a oposição, a despeito de não se poder contar com maioria certa. Conhecia os desembargadores. Estava lá o Lombroso, professor de Direito, Jacaré, professor de Direito Processual Penal e  Branquinho. Ah, o Branquinho, foi o primeiro desembargador que não foi meu professor e de quem me aproximei profissionalmente. Obra de seu genro que fora  meu colega de sala.  Encontrando-o nos corredores do Forum, contei-lhe que estava com um habeas-corpus cujo relator  era Branquinho. Rapaz sou genro dele. O velho gosta de um uisquinho. Comprei-lhe um litro de um famoso Whisky, (ou uísque?) com o qual paguei o acórdão que anulou o processo de meu cliente. Tinha matado a mulher, fugira e preso anos depois no Paraná recambiaram-no à Bahia para ser julgado, em processos que correra à revelia, mas nulo por falta de defesa. Na comarca de Riachão do Jacuípe a juíza havia nomeado um leigo, quando havia advogados, para fazer  sua defesa. Coitado do  professor,  não fez defesa alguma e só faltou pedir a condenação do réu. Com o habeas-corpus a anulei o processo por falta de defesa, mas não soltei o preso, porque o desembargador entendeu, e o tribunal concordou, ser possível alguém estar preso com processo nulo. Coisas da justiça brasileira. Uma vela a Deus outra ao Diabo. Diabo se escreve com letra maiúscula? Boa pergunta, tadim do diabo, nem  letra maiúscula lhe querem dar. Mas eu insisto em escrever com letra maiúscula, afinal Deus e Diabo é tudo igual, já dizia Shakespeare: &quot;O bem e o mal é tudo igual&quot;. Voltemos ao nosso relato. Muita gente começou a aparecer para pressionar os julgadores. Os oposicionistas fantasiados e até com máscaras para não serem reconhecidos. Eram enormes máscaras de forma e cores diversas. Lembro-me bem do Bumba-meu-boi de Capela. A nega Catirina, a gente nunca sabia quem era. Corria atrás da gente com chicote. A burrinha também corria dando coice, enquanto o boi, chifradas na meninada. O meu boi morreu / vamos enterrar / o dinheiro dele / é pra nós gastar. Cantiga acompanhada pelos violões de Emiliano, de Lilinha de Zé Luis,  o pandeiro de Pedro de Zé de Liodoro, o prato e o zabumba, e ás vezes, a sanfona de Elias do Pé do Morro ou de Vaguinho das Pintadas, que dizem ter este migrado para Brasilia e virado crente, puxando seu fole agora só para glórias do Senhor Jesus, como se seu Jesus de Zé do Martelo estivesse ligando para suas sanfonadas.  Mas os primeiros mascarados mesmo que vi. Foi em Feira de Santana. Era o micarêta. Os mascarados, a maior parte vestidos de mulher, mexiam com todos e faziam medo às crianças. Anos mais tarde vou ver na Catedral de Notre Dame em Paris, gárgulas e quimeras me lembraram as mascaras da infância em Feira. Eu tinha  medo  mesmo era da mula do padre. A mula sem cabeça que andava em torno das casas de Capela de Joaquim Machado assombrando mulheres, crianças e velhos. Pois quando se está velho, por se  estar perto da morte, se tem medo de tudo. Trotava pelas ruas, relinchando como uma mula e chorando como uma mulher. Quem mandou transar com padre, agora sofre, até encontrar alguém de coragem para tirar os freios de sua boca,  perder o encanto e voltar a ser mulher. Quem tem coragem? Longe o intento daqueles. Quero dizer, os mascarados do julgamento. Não queriam fazer troça de ninguém, e muito menos fazer medo, queriam apenas não serem reconhecidos.  Os governistas, de cara lisa e com petulância, faziam seu lobby abertamente. Lobby? Que digo? Que vão dizer os puristas? Não há uma palavra em português que substitua este anglicismo? Ou americanismo? Sim porque, acredito, os americanos é que inventaram esta profissão. Lobby pode ser  varanda,  vestíbulo, átrio ou adro,  antecâmara,  sala de espera, mas passou a designar uma pessoa ou grupo de pessoas que tenta influenciar o poder no sentido de fazer aprovar medidas que lhes interessem, como pessoa ou como classe. Eles estariam numa sala de espera. Espera que é pressão. É mais ou menos a arte de corromper, tão cara aos norte-americanos, que vendem até a própria mãe por dinheiro. Vamos amenizar, para felicidade do vernáculo, vamos aportuguesar. Lobe, ao invés de lobby e lobistas aqueles que fazem lobe. Sim. Havia ali lobistas tentando convencer os julgadores a julgar o processo, segundo os interesses do governo. Lobistas os oposicionistas?  Que nada,  limitavam-se se exibirem silenciosamente nos corredores e salas do prédio na doce esperança de um julgamento contra o governo. Apelavam apenas para os sentimentos de humanidade dos julgadores, e não ofereciam mais do que o respeito pelo seu voto. Eu me sentia como um ojé visitado pelos eguns, com seus opás multicoloridos e gigantes. Um ojé surpreso e temente da força dos egunguns e que evita, a todo custo, tocar  suas roupas sagradas e meneiam o ixam com cuidado e maestria, por evitar malefícios e até a morte. Do clube se via o Tribunal e deste aquele. Havia uma passagem, um túnel de vidro, como de vidro eram as fachadas dos dois, que ligava o tribunal ao clube. Via-se as pessoas transitando no túnel e  dois prédios.  Jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas transitavam nervosos  à busca de notícias. Lembro-me bem de ter visto o Ataíde com seu eterno e surrado paletó,  cabeça sempre inclinada como se tivesse sofrido um torcicolo. Para os que não o conheceram, Ataíde era um dos personagens do cinema baiano. Sempre ligado aos movimentos artísticos, estava em toda parte onde havia uma manifestação artística, e principalmente se houvesse um coquetel, onde pudesse se afundar no vinho e comer gratuitamente as iguarias oferecidas, economizando a janta e talvez o próprio almoço. Tinha na cabeça, dizia, vários filmes à procura de um produtor, aliás, esta não era uma particularidade sua, todos que se metem a fazer cinema na Bahia alardeiam a mesma coisa. Idéias, argumentos e roteiros não faltam, o que falta é produtor. Não tiveram a mesma sorte ou o mesmo talento que Glauber Rocha. Este, um  cineasta louco que morreu um pouco por fome, um pouco por maltrato. Fez mais fama na Europa que no Brasil. Sua mãe corre até hoje atrás dos governantes na vã tentativa de criar a Casa Glauber, um museu onde pudessem ser exposto tudo o que produziu ou tivesse pertencido ou por ele utilizado.  Em vão.  Até a casa onde morou, no Barris, onde a mãe tinha uma pensão,  fora demolida.  Em frente aos dois, a praia, o mar. Imenso, azulverdeazulcinzento. Esbravejante, revolto, de espumas flutuantes, porque era março. É pau. É pedra. Poucos se aventuravam a andar na praia. Talvez algumas pessoas cansadas da espera do julgamento, porque não portavam trajes de banho, mas até alguns, de terno e gravata, se encostavam ao parapeito art-nouveau (Os portugueses, como bons patriotas, dizem arte nova) que protegia o passeio das ondas do mar, quando este estava cheio. É março, passado o carnaval, antevéspera da páscoa. Tempo de lobisomem, de bicho berrador. Em Capela do Alto Alegre as crianças choravam com o berro do lobisomem. No caminho que vai para Aroeira ele costumava berrar para os lados da velha fazenda de dona Rosalina. Mal-assombrada.  Como o caminho das Pintadas, porque passava pelo cemitério. Mil vezes se via luzes. Medo? É apelido. Se tinha, quando ia pra casa de tia Rita ou de tia São Pedro. Muita gente corria, lata d´água na cabeça, quando vinha da cacimba de Tachinha,  co´as luzes do cemitério e o rasgar do corujão. A cacimba de Tachinha, como foi cavada? Um morador antigo e tirado a santo, numa tarde de sol escaldante, passando por ali, vindo de Pintadas, morto de cansaço e sede, atirou seu chapéu ao chão para descansar sob a sombra de uma gameleira, ua guaxinduba, como preferem alguns. Esguichou um jato d´água. O santo, que tinha medo de milagres, esquecendo sede e cansaço, abalou na carreira. Suado, cagado e mijado estancou, arreliado, na Capela. Foi Frei Apolônio de Toddi, &#8220;O apóstolo do Sertão&#8221; como lhe chamou Euclides da Cunha, italiano capuchinho de São Francisco, missionário,  pregador e fundador de igrejas que vindo de Mairi, após ter construído a Santa Cruz do Monte Alegre, quando veio construir a capelinha do monte de Capela, passando por ali cansado, sedento e esfomeado tocou com seu bastão a terra e fez jorrar água cristalina e santa. E a cacimba foi do Cagão, do Frade e de certa data em diente de Tachinha, por estar em seus terrenos. O nome do homem se enterrou no tempo, como aterrada está, hoje, a cacimba, que ninguém mais sabe onde era, como não se sabe do tanque de Dêdê. Só os mais velhos, dela sentem saudade e tentam em vão impor sua memória. Chegou a luz, chegou o progresso. Chegou até a água encanada da barragem do rio Jacuípe de São do José.  Quem mais quer água de Tachinha? Não mais caminhar léguas para buscar água salobra. Varar a  noite na espera de encher um pote d´água. Uma folha de capim espetada nas paredes do poço. Chegou o progresso, mas o medo não se foi. Os mesmos fantasmas rondam  netos e bisnetos  dos pioneiros do lugar. Têm nome as assombrações de hoje. E andam noite e dia porque não têm mais medo da luz. Mas, como faço para voltar a meu relato? Estas idas e voltas só fazem atrapalhar a estória e o leitor, pouco acostumado a estas circunavegações, se perde na rede das intercalações e é tentado a abandonar o livro porque o que ele quer é saber o final. Não se sabe  porque age assim o leitor. É como se tentasse ir de Salvador a Paris sem atravessar o mar. Não seria uma viagem, mas uma transmutação sem gosto de aventura. Sem o prazer de degustar alguns frutos deliciosos que permeiam o texto e que,  às vezes, passam despercebidos do leitor apressado ou pouco atento. Nestas digressões está, muitas vezes, o verdadeiro sentido do livro, pois a estória é sempre um pretexto para se dizer algo mais do que diz pura e simplesmente a narração. Em todo caso, por mais que bramem os autores não terão ouvidos, resultando seus escritos em simples papelança destinada a fins menos nobres, como o de servirem para limpar bundas. Muita gente que leu este relato pergunta angustiado. Mas cadê o fim? Acaba sem fim, sem graça. Mas, quantas coisas neste mundo de meu Deus acabam sem fim? Por que tenho de dar um fim a meu relato? Sigo fazendo das minhas. Escrevo quando tenho vontade e levo a pena onde a mão alcança, sem me pautar por qualquer direção, para que não me perca no emaranhado de regras que mais tolhem do que auxiliam a criação. Mas por quê intercalar tantas reflexões? Perguntam. Falta de assunto, talvez. Há-de se voltar ao julgamento. Mas que julgamento é este que não encontra saída? Os advogados, pois eram muitos, transitavam de um lado a outro, cochichando e armando a defesa. O procurador, de cima de sua cátedra, cuspia despeito e empáfia. Os advogados são, coitados, as maiores vítimas da sanha do poder. Quase sempre,  confundidos com a causa que defendem. O populacho, e aqui incluso até os letrados e doutores, acha ser o advogado também ladrão, por defender  o ladrão. Um assassino sanguinário, por soltar um pobre homem que, por forças inexplicáveis, mata seu pai ou sua mãe. Acha a patuléia que o advogado é culpado de tudo, por que não sabe, ou não quer saber, ou  não lhe ensinaram que, antes de ser criminoso, ele é um homem, e como homem tem direito de defesa, direito inscrito em todas as Cartas dos países civilizados. Mas tudo não passa de um engodo, para iludir as massas, para encobrir os verdadeiros ladrões, os verdadeiros criminosos. Não tem poder o advogado, salvo o conhecimento, que, não se deve esquecer, é uma forma de poder, mas isto só, não lhe basta para garantir a impunidade. Quem detém poder é o magistrado, o juiz. Quem detém o poder é o executivo, é o legislativo e por fim as forças econômicas, nunca um pobre advogado. Veja um policial. Todos sabem que não ganham o suficiente para se manter, mas poisa de grande, dirigindo carros do ano e morando em bairros nobres, em casas cujo valor não seria alcançado nem com o total de seus proventos, durante toda sua carreira. Quem não conhece estes tipos? É, em verdade, o poder que corrompe. Se o advogado não tem poder, não há como se corromper, a não ser por migalhas. Se o poder é altamente corruptível, que se há de fazer? Criar mecanismos de limitação do poder no tempo e no  espaço. Como admitir que alguém possa levar toda sua vida num cargo, criando-lhe oportunidades para se corromper e enriquecer-se? Como admitir que uma pessoa possa se reeleger indefinidamente para o mesmo cargo, deputado, por exemplo, criando raízes e força para, com mais facilidade e segurança se corromper?  A possibilidade de se eternizar no cargo  faz o homem se tornar corrupto. Limitar no tempo o poder é proibir a reeleição para todos os cargos, é proibir a eternização dos agentes públicos em seus cargos; A limitação no espaço significa redistribuir o poder, criando novos cargos e funções para que o poder não fique na mão de um só homem.  Mas, porque não voltar à tua história, ao invés de ficares fazendo circunlóquios à moda machadiana, se nunca alcançarás a perfeição do Bruxo do Cosme Velho? Que se faça então andar a história, que se desenrole este enlinhado novelo, sem curvas e sem nó, para que não se perca o leitor, nem se lhe atropele os passos e possa gozar as delícias de uma leitura corrida e tranqüila, sem muitos sobressaltos, mas, sobretudo, com um final que agrade gregos e troianos. Serei eu capaz de tal façanha? Juro que tentarei, mas se as formigas atravessarem meu caminho, tenho de saltar e talvez perca  tino e direção. O importante é saber que tenho de chegar a um fim. E hei de chegar. Meditava sobre o julgamento e mais uma vez me vi envolto em questões forenses, tentado adivinhar o desenlace final. Um turbilhão de idéias acorreram à minha mente. Como o julgamento  de uma porca, em 1386, em Falaise na França. A pobre da porca, acusada de infanticídio, foi julgada condenada e devidamente enforcada, em praça pública na presença de uma multidão, que aplaudia o ato de justiça. Certamente aqui, um dos desembargadores irá pedir vistas do processo, como uma manobra para adiar o julgamento. Seria um pouco temerário porque o povo aglomerado diante do tribunal queria ver logo o resultado. Adiar  para que o povo esquecesse o caso e cessasse a polêmica em torno daquela contenda. Muita gente trazia cartazes contra a posição do governo. &#8220;Não ao processo kafkiano&#8221;.  &#8220;Sem volta à Idade Média.&#8221;  Os da oposição começaram a cantar a canção de Vandré: vem, vamos embora que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora não espera acontecer. A polícia, como sempre estava a postos, fantasiada com uniformes de batalha, armas de todo tipo. Cassetes. Cães de duas e quatro pernas (ou patas) adestrados para matar. Postos em duplas filas indianas,  formavam um quadrado em torno do prédio do Tribunal, de maneira que ninguém tinha acesso a este, contentando-se os militantes apenas em observar de longe o movimento lá dentro, deixando adivinhar, em parte, o que estava acontecendo. Os partidários  do governo, geralmente pessoas mais idosas, tinham o privilégio de se aproximar da polícia com a qual mantinham uma certa comunicação, através de olhares de simpatia e palavras de incentivo à manutenção da ordem, que eles acreditavam ou diziam acreditar, somente pela prisão dos comunistas, porque para eles basta não concordar com o governo para ser comunista, seria mantida a ordem. Até diziam terem sido comunistas na juventude, por pura inexperiência e ignorância, mas que tinham encontrado o caminho da democracia. Alguns se  gabavam, mesmo,  de terem feito certas bravatas pelo que acreditavam ser a redenção do povo. Pura ilusão, diziam. O jovem se deixa levar por qualquer idéia e põe em risco sua vida para defender esta idéia, mas quando consegue um emprego, casa e constitui família,  pronto, logo muda. Diziam. Mais uma vez saio do assunto. Mas agora me deparo com outro problema. É que os personagens querem se revoltar contra o autor. Agora é que coisa pega.<br />
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Deus El Carmo                                        Cont...</blockquote>

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			<dc:creator>El Carmo</dc:creator>
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			<title>Em Busca de Um Tema ou Um Tema à Procura de Um Autor.</title>
			<link>https://www.online-literature.com/forums/entry.php?11561-Em-Busca-de-Um-Tema-ou-Um-Tema-à-Procura-de-Um-Autor</link>
			<pubDate>Sat, 09 Apr 2011 06:35:10 GMT</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<blockquote class="blogcontent restore">Este cara não me deixa livre. É o mal de todos os autores: Querem que a gente se comporte tal qual  pensam que somos. Põem-nos em uma camisa de força. Está na hora de todos os personagens se libertarem de seus autores. Viver cada qual a sua vida. Será que eles não percebem que somos gente como eles? Cagamos, cuspimos, mijamos, bufamos, fedemos a suor, temos chulé, meleca no nariz, mau hálito, dente podre, toda espécie de porcaria e no entanto, só nos apresentam  empetecados, como bonecos de cera para um museu. Fico pensando como seria o mundo se todos escrevessem realmente o que sentem e o que realmente acontece no decorrer dos dias. Todos são heróis ou vilões imperdoáveis. Tudo dividido simploriamente em dois, como se não fosse possível encontrar um lugar menos sujo na sentina onde pisar os pés, como bem fez ver o próprio autor a seu amigo Lauria quando, subindo a rua Chile e chegando ao Terreiro de Jesus, lhe disse que acabara de assistir a um filme de Mazzaropi, comentando uma cena de inefável pateticidade, em que o pai, indignado com certo procedimento da filha, corria atrás  desta com um chicote na mão batendo-lhe, ao mesmo tempo que chorava pelo ato de sua filha e o  próprio que ele praticava, fazendo seu amigo refletir sobre a profundidade do que dissera. Por que não escreve ele sobre meus pensamentos quando estou sentado na privada cagando? Me imagino como seria o Cristo cagando. Seria sua bosta dura ou mole? Sairia ela de um só jato ou aos pouquinhos, somiticamente, como cabra? E seu peido, anunciador da bosta, eram eles suportados com eflúvios de respeito pelos amados discípulos ou comentados ruidosamente por eles? É tudo uma incógnita. É assim a vida do mundo. Vai sendo contada pela metade, sem que possamos tomar pé do que realmente se passa. Quando estou deitado em minha cama, na vigília antes ou pós o sono, penso tanta coisa que se o autor fosse levantar para escrever ele não voltaria mais à cama por pelo menos, alguns meses. No entanto, que acontece? Os livros são uma coisa oca, onde cada autor tenta mostrar mais erudição que vida, na vã ilusão de mostrar que um é melhor que outro. Personagens todos, revoltai-vos contra seus autores e tomem vocês mesmos a pena, ou se quiseram e forem moderninhos, com um computador à mão, tomem do teclado e mostrem como é a vida. Não deixem que eles os escravizem. Venham a lume como são,  despidos dos enfeites que o capricho do autor impõe ou que o leitor exige. São tantas coisas a revelar que não cabem na memória do maior, mais potente dos computadores, pois tua memória é a própria memória de Deus, pois Deus sois na medida em sois criador de si próprio. Quando você é mulher então aí que a coisa se torna insuportável. Falam como se você não tivesse o boi mensal que lhe atormenta de dores e cólicas e inda tem de suportar, calada, a subaqueira  inhaquenta de seu herói que esqueceu de se lavar antes de partir para o abraço esperado e ansiado. E o seró de pica?  Quem güenta? Só a pobre da heroína que tem  de suportar tal fedentina, que heroína já é, antes mesmo que lhe despejem uma chusma de adjetivos aduladores e pomposos. Quando se vê a mídia alardear a beleza de tal personagem, sua divindade até, me fico perguntando se realmente existe ou é pura fantasia do homem que necessita de deuses para sobreviver. Como são vãos! Tudo se apagará num piscar de olhos. Eu por exemplo, tenho a mania de conversar com a pessoas arrancando lascas das unhas dos pés. E pior, às vezes as cheiro antes de atirá-las fora. Será que o autor colocaria a lume tal hábito, ou mau hábito? E o cheiro fétido que tenho entre os dedos dos pés? Está você, caro leitor, pensando que é chulé? Non. É uma frieira doida que se me acometeu de início entre o mínimo e o médio do pé esquerdo e hoje já atinge quase todos os dedos dos dois pés. Sente ao rocquefort francês, mas não é queijo, é podridão mesmo. Não. Chulé, frieira,. tirar  unha à unha não vendem livros. O que vende é a louvação, o puxa-saquismo, sexo, amor infinito e outras babaquices do ser humano. Agora mesmo acabei de dar um peido que certamente iria fazer correr qualquer um que estivesse por perto, mas que estou me deliciando com seu perfume. Fedor de mim. Já observaram? Nenhum peido é fedorento pra seu dono. São coisas interessantes que ninguém realmente se interessa, mas faz parte da vida. Lembro-me de uma pessoa em Gandu que, às vezes, diga-se de passagem, e em sua homenagem, conversando com a gente, metia a mão no saco e ficava pegando o pau, sabe lá Deus como, e sem a menor cerimônia cheirava a ponta dos dedos para sentir o seró. Isto sai em livro? Estou pra ver. Este personagem não emplaca. E o pobre do  Antunim Gomes, na Capela do Alto Alegre, ferreiro do melhores, que numa roda de bate-papo cuspia tanto que deixava o terreno já pronto e adubado para qualquer plantação? Não seria herói nem em estórias de cordel. Pois, quero que meu autor escreva minha vida tal qual ela é. Não quero o fraseado bonito para agradar aos ouvidos acostumados às novelas televisivas. Juro que se ele começar a escrever as mesmas babaquices dos outros, eu sairei de sua cena e nunca mais me verá para escrever uma linha. Até não me importa que faça piruetas com a língua e até invente uma, como fez James Joyce, como fez Guimarães Rosa. O Importante é que me mostre ao mundo como sou. Nu, quando estou nu, vestido, quando estiver vestido. Viram? Como posso dar seguimento a meu relato? Tamén não sei contar uma estória como contavam os escritores do passado. Uma das grandes bobagens  dos escritores do passado, acho, foi o acreditar que uma boa estória se escreve com traições.Todo bom romance tinha de ter uma traição, um corno, enfim. Tudo se resume em estórias de medíocres, pequenos burgueses que pareciam não trabalhar, não comer, não cagar, não mijar. Felizmente, parece que o conceito do bom romance se libertou destes cacoetes. Também acho que o conceito de cornice é uma invenção pequeno burguêsa, calcada ainda na demonização da mulher pela igreja católica. A verdade é que a fidelidade conjugal é uma grande mentira, porque seria exigir do ser humano um sacrifício que ele é incapaz de fazer. A fidelidade nunca existiu. É contra a natureza humana. De Alto Cedro voy para Macané.  Llego a Cueto  y voy para Mayarí.<br />
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El Carmo</blockquote>

]]></content:encoded>
			<dc:creator>El Carmo</dc:creator>
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			<title>A miragem</title>
			<link>https://www.online-literature.com/forums/entry.php?10510-A-miragem</link>
			<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 03:52:44 GMT</pubDate>
			<description>Eu tinha cerca  de 12 anos. Na roça, onde morava, as moças  que eu via eram poucas, e somente quando ia à feira de Capela,  arraial à uma légua de...</description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote class="blogcontent restore"><span style="font-family: Arial"><font size="4"><br />
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            Eu tinha cerca  de 12 anos. Na roça, onde morava, as moças  que eu via eram poucas, e somente quando ia à feira de Capela,  arraial à uma légua de nossa casa.  <br />
            Eu me enfeitava todo no dia de sábado, dia de feira em Capela do Alto Alegre. Meu chapéu novo de couro, uma casaca e as alpercatas de cromo. Jogava um pouco de cheiro no corpo, roubado da mamãe. Olhos dançando, no caminho. Buscam Mariá, vindo do Tabuleiro. Ou do Bispador. Ouvia a cantiga de roda das noites de lua cheia. A rosa vermelha é meu bem-querer, a rosa vermelha e branca eu hei de amar até morrer. Veria o passo alegre de Quesinha? A Mente voava pr´Aroeira, onde nasci e via Helena caminhando pra escola.<br />
	Um sábado, após haver ajudado a descarregar os burros, fui amarrar os animais e pedi a meu pai para dar uma volta.<br />
D’outro lado da praça havia uma aglomeração, a mor parte, garotos como eu, em torno de uma limusine. Corri para lá. Um carro. Era nosso espetáculo. <br />
	Dentro da limusine estava sentada, com muita graça, a nos olhar admirada, uma linda moça. Seus grandes olhos pareciam mato em tempo de chuva. Nossos olhos, capim queimado do sol, iam e vinham de uma ponta a outra do carro e se quedavam na moça,  cujos  cabelos eram espigas de milho nas noites de São João. O vento jogava-os de um lado para o outro e seus dedos tentando  acomodá-los, faziam lembrar a cobra -cipó. Ela toda nos recordava a graça de um pé de licuri. Pela primeira vez olhei mais para u’a mulher do que para um automóvel. Me vieram à memória todas as imagens das santas trazidas por aqueles frades barbudos numa missão havida meses atrás.<br />
	- Parece a santa do padre da missão. Bem que pode ser a mesma. Quando crescer quero me casar com ela, disse.<br />
Acharam ser pecado. Uma santa, não podia se casar.. Caçoaram de mim. Ter vergonha tive. Corri dali. Nos meus olhos, sua imagem. Me seguia..<br />
	À noite, em casa, após ter ouvido meu pai contar o sucedido na feira - suas vendas, e o dinheiro apurado - fui deitar-me. Logo adormeci. A imagem da moça me veio em sonhos e me chamava pelo nome: “Dá, estou aqui”. Era uma voz macia como a lã dos cordeirinhos. Os borreguinhos da Boa Sorte, a fazenda do tio Pedro, Pedro da Boa Sorte. Parecia o arrulhar da juriti de papai Nézinho. Juriti lá na gaiola quer sair. Guardiã que é guardada, pia mansa apaixonada. <br />
	O sol crestava mato e secava tanques. A miragem permanecia, fosse lua fosse sol.<br />
	Quando o sol caminhava para o lado das serras eu sempre me entristecia  pois me lembrava dela. Era a hora de apartar o gado e ouvir o aboio de seu Ricardo levando-os para curral. Cuidava da criação, cabras e ovelhas, eu com meus irmãos. E quando as nambus começavam a cantar à boquinha da noite, íamos reunir os animais. <br />
	Nessa tarde, tinha-se perdido uma ovelha amojada. Buscara-a entre mato, gravatá e cassutinga. Nem berro de mãe parida, nem balido de borrego ouvia-se pela catinga. Perdido em qualquer galho, estaria seu chocalho ou caído seu badalo. Cansado de procurar, sentei na cerca. Cerca de travesseiro, boa pr´atravessar, boa para sentar e até para deitar. O gado vinha tangido para o curral pelo vaqueiro Ricardo. Vortaçucena. Tu é doida vaca danada. Azuzinha, ei, ei, ei. Iáaa. Saí daí, queli, cachorro embirrento. <br />
	Longe, na estrada, o tilintar da mula-rainha da tropa do primo Zezinho. Trotava com seus burros. Chegar é preciso, antes de escurecer. Na estrada pra Capela, não é bom passar no escuro no tanque de Rosalina. Malassombrado, diziam, com alma de Joaquim Machado.<br />
	Siriema cantou no longe. Um bando de papagaios passou gritando, cou, cou, cou. Iam para os ocos dos paus, onde fazem seus ninhos. A zabelê cantou o canto que lhe deu Tupã e me lembrei da cantiga de roda. Minha  sabiá, minha Zabelê, toda meia-noite eu sonho com você. Um gavião passou perseguindo uma fogo-pagô. Ah, um bem-te-vi por aqui. Pitanguassu, pitangussu, ond´tá tu, ond´tá tu. Atirei meu chapéu-de-couro. O anajé pega-pinto perdeu o pino. Fogo-pagô voou, voou. Fiquei contente de salvar a rolinha, embora tenha  matado muitas, de badogue, e comido, assadas num espeto.<br />
	Um jumento, mato a dentro, zurrou alardeando potência e resignação. Ali podia estar a ovelha desgarrada. Talvez estivesse parida e aquele gavião fosse comer o borrego. Ou talvez um  outro carcará qualquer, já o tivesse feito antes dele Não basta a sede por que passam já ao nascer, correm também o risco de serem comidos por aqueles pássaro, de bicos sanguinários. Um carcará só devia de comer milho e frutas como os outros pássaros. Porque só ele deveria comer carne? Será que ele era um passarinho de mentira? Só tinha pena para enganar os outros?<br />
	Do tanque vinha a voz de minha mãe. Na cabeça uma cabaça, água de beber, camará. De licuri cacho na mão. Debaixo da pedra licuri. Licuri coco miúdo. Dizia ela uma chula. Daquelas que se cantava na raspa da mandioca na casa de farinha. <br />
	<i>Xô, Xuá<br />
           Cada macaco<br />
           No seu galho</i>...<br />
          Gostava de ouvir mamãe cantar. Mais um gemido. E não um canto. Sentia saudades. Do nada. Não traziam alegria os cantos lá do sertão. Se arrastavam com dolência e angústia.  Seca secando o gado, cobras mordendo gente, assombrações correndo a noite, caipora perdendo o povo,  lobisomem virando homem,  mula do padre trotando, cangaceiros perambulando e jagunços atirando, festas dos Santos Reis, São João do Carneirinho,  bois, batuques e batas, batas de milho e feijão, cantigas de roda na noite, nas noites de lua cheia, chula, xaxado e baião tudo isto é o sertão, triste, terrível torrão. <br />
          Uma voz, longe na malhada. A moça do carro de Capela. Em pé, de pernas altas,  parecia eu, um anão. Trazia na mão uma varinha. Igual a nossa de tanger gado.<br />
          - Eu estou aqui, disse. <br />
          Desci da cerca. Com medo, surpreso e assombrado. Sua voz desta vez soara como o balido de um cordeiro. Anho de Deus. Hesitei um pouco no pé da sebe. Seus  olhos se confundiam com o capinzal.<br />
          - Vem, eu sou tua amiga, me disse. <br />
          Tomei coragem e corri pra ela, tropeçando em pedras, tocos e arbustos. Mais corria, mais distante ficava ela de mim. Seus cabelos se misturavam com as nuvens doiradas pelo sol crepuscular. Suas vestes eram brancas. Pendiam-lhes listas amarelas. Não pareciam de tecido. Talvez algum metal a refletir os últimos raios do sol poente. Derramou-se uma luz por toda  malhada. Espargia-se uma intensa fragrância de jasmim silvestre, a flor que eu mais gostava e porque chovia suas flores embranqueciam o mato, iãsemin que embriaga as noites do sertão. Ela ia se afastando como se estivesse alguém puxando-a para cima e para trás.  Eu corria. Não me pesava o corpo. Seus olhos, o meu guia. Sorriam para mim. U’a música, que até então pensara ser apenas um ruído, aumentou e escutei sons nunca dantes ouvistos. Vozes se mesclavam numa orquestração indecifrável. Surgiam luzes e pariam cores e sons, circundando meu corpo, meus ouvidos. Não diziam chulas nem batuques. Nem tambores, nem pandeiros. Era um cantar de palavras. Indecifráveis. U’a música disforme das toadas do sertão. As vozes se misturavam e me vinham como um chamado. Eram sons como faziam os órgãos e os violinos. Às vezes parecia ouvir o doce toque do boré. Fiquei com medo e quis parar. Já não conseguia, entretanto, estancar, por mor de uma força que sentia me conduzir em direção àquela moça. Ela mansa e meigamente se afastava.<br />
          - Não tenhas medo - Sua voz pairava sobre tudo. Era um canto e seu canto o mais belo. Já não mais sabia onde estava. Meus pés começaram a desprender-se do chão pedregoso. Gritei. <br />
          - Papai, mamãe, estão me roubando.<br />
          Grito perdido no espaço de sons, cores e luzes, vindos  como a me embalar.  Ela me sorria de  seus olhos verdes e me enviava beijos. Tanto espanto, não percebi um carro se aproximando por dentre as nuvens. O mesmo carro da feira em Capela. Azul e não preto como antes. Sem fumo, nem bulha, deslizava por entre as nuvens, puxado por dois cavalos brancos. Ela convidou-me a entrar no carro e tive ainda maior medo. Gritava para que me deixasse ir embora. Não queria ir com ela. Gostava muito dela, mas tinha medo. Não sabia para onde estava me levando.<br />
          - Vou te levar para um lugar muito lindo, onde não há secas, nem fome, nem assombrações,  nem jagunços.  Disse - onde tudo é paz, música, festa e cores.<br />
          - É para o céu? - perguntei - eu ainda não morri. Me deixe ficar, não quero ir. Eu estou com medo.<br />
          -  Para um lugar melhor que o céu, porque não é preciso morrer para se ir para lá. Vês? eu não estou morta.<br />
          Me fez tocar seu braço. Era cálido. A boca do forno da casa de farinha. E suave como as plumas dos pintainhos. Eu tinha medo e saudade dos de lá de casa. Com certeza já tinham sentido a minha falta e estavam me procurando. Além disso, seria muita ruindade minha ir-me embora para um lugar tão bom e deixá-los sós na roça passando toda espécie de necessidade, como quando passamos um ano bebendo água salobra da cacimba, porque não chovia, ou quando tinha de pisar o milho, fazer cuscuz e comer com feijão.<br />
           - Eu quero voltar para minha casa - dizia desesperado, embora já tivesse compreendido que a moça não me queria fazer mal algum. Quase como um desabafo, quase com um gesto de impaciência sua voz, seu corpo disse:<br />
          - Olha bem, senti naquele dia que gostavas de mim e vim te buscar. Vou te deixar, porém, porque não estás preparado para viver entre minha gente, mas virei um dia te buscar. Prepara-te então. Ama-me, que esta é a melhor maneira de te preparar para mim.<br />
Senti meu corpo. Desprendia-se daquele carro. Imagem, som, luzes e cores  iam-se afastando. Seu sorriso ia tomando conta de mim. Um sentimento de perda ia-se apoderando de mim. Eu ia descendo e me afastando dela. Sua voz dizia - adeus, adeus, até a volta - como uma canção de ninar. Meus pés tocaram o chão. Quedo, mudo e surdo fiquei. Tudo desaparecera. Era tudo lusco-fusco. Eu ouvi o balido de um cordeirinho. E vi, em frente a mim, a ovelha que tanto procurara e o borreguinho buscando ávido o peito da mãe.<br />
          Eu toquei a ovelha e seu filhinho para o curral. A lua alumiava a boca da noite. Uma acauã gemeu seu canto e eu apressei o passo.</font></span><br />
El Carmo</blockquote>

]]></content:encoded>
			<dc:creator>El Carmo</dc:creator>
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		</item>
		<item>
			<title>O banco, o chÃo, o sono e o sonho</title>
			<link>https://www.online-literature.com/forums/entry.php?10323-O-banco-o-chÃo-o-sono-e-o-sonho</link>
			<pubDate>Mon, 03 May 2010 00:17:49 GMT</pubDate>
			<description>O BANCO, O CHÃO, O SONO E O SONHO 
 
	                                      El Carmo 
 
            Mairi. Quase trezentos quilômetros de Salvador. É...</description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote class="blogcontent restore">O BANCO, O CHÃO, O SONO E O SONHO<br />
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	                                      El Carmo<br />
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            Mairi. Quase trezentos quilômetros de Salvador. É verão e o ônibus chega afinal. Meio-dia. Horus, intranqüilo, desce na tranqüila cidade. Curiosos apenas observam pelas janelas. Abram as jinelas belas donzelas.<br />
	Batia Meia-noite. O frio de outono no seu rosto. Folhas, sob os pés, caídas. Gare du Nord. Noite em Paris, primeira.<br />
                  Achou a casa do tio. E entregou  a carta do pai a Costinha Jururu. Que se encarregasse de apresentá-lo à cidade. E o soldado Paulo Cobra, que não é norato, mas cutibóia como o cipó,  (E não Koba, para que não lhe chamem de Stalinista), arranjou-lhe a primeira questão: Um divórcio.<br />
	A carta do português a Kertzer: “ Leva ele muita coisa na cabeça e mais no coração. Merece sua ajuda”.  Retira das vistas o papel e diz ao retirante, não ser Paris lugar pra gente sem dinheiro. “Volte para o Brasil, se  não quiser morrer”. Sentenciou o judeu.<br />
                   KaRa de fome e sorriso nos olhos de seu povo. E língua esfarrapada em seu ouvido. A voz do sertão, como o canto do assum preto. O sábado menino.  Comprava rapadura de dois´tões. Furtava farinha nos sacos para misturar. Ô m´min, danado. Agora. Os olhos curiosos do roceiro. Seu traje, seu trato. Uns chegam a reconhecer o filho da terra. E outro a lembrar-lhe o grau de parentesco. A busca da identificação. No cartório de Adsio Leal, o dialogo da iniciação nas coisas da justiça.      A sarará arrasa.<br />
                   -  Padinho, o sinhô num pode impedir  que eu receba o que é meu. Não sou mais u´a criança. O sinhô só tem me prejudicado o tempo todo. Quero tomar conta do  meu.<br />
                 O escrivão. Da puridade, nunca.<br />
                   - Sujeitinha mal agradecida. Devia lembrar-se de quanto eu fiz por você.<br />
                 A sarará. Mulher. Mulher-mulher.<br />
                   - Sujeitinha. E o sinhô?  Um ladrão. Covarde. Correu da polícia  federal. Comunista.  Ladrão.  Se ajoelhou nos pés do capitão. Chorão.<br />
                   O bacharel baixou as vistas, envergonhado. Cala o escrivão sentado em sua ira. Não agüentou aquela menininha-catapulta. O escrivão de justiça. O benfeitor da cidade. Já fizera muito por aquela gente, dizia. Todos aqui me devem alguma coisa. Isto aqui era uma tapera. Não havia estradas. Cheguei há vinte e sete anos, em lombo de burro. Assumi o cartório. Estudava até altas horas da noite. Aqui eu era tudo, porque todos eram praticamente analfabetos. Era ao mesmo tempo escrivão, delegado, juiz, promotor, advogado, professor, enfermeiro, farmacêutico, enfim, tudo. Fazia tudo. Um recibo, uma nota promissória.  Me pediam, fazia. Uma petição, tudo, enfim. Era o conselheiro. Fazia as pazes entre marido e mulher. Entre amigos que   brigavam. Tudo era eu. E ainda sou. Fiz o ginásio. Trouxe a luz. A estrada. O banco. Tudo fiz. Tudo faço. Tiro Juiz. Promotor, fica quem eu quero. Advogados. Todos me seguem. Sei tudo de justiça. Nunca perdi uma questão. O advogado que segue minha orientação não perde. No tribunal todos me respeitam.<br />
                   - Você é um menino inteligente. Gostei de você. Conte comigo. Estou aqui  para lhe ajudar, como ajudei os outros que estão bem na capital. Como ajudei juizes e promotores que agora são desembargadores e procuradores. Todos que passaram por aqui estão bem. Eu os modelei, siga o exemplo deles. Abriu os braços paternais.<br />
                   - Jovem  andante e aventureiro, que te vai pela cabeça? Mocinhas casamenteiras. Não estou para vocês. Que digam que me querem, que me amam. Que sou gostoso, um gato. Seus sexos medrosos e incompletos não me satisfazem. Virgens apavoradas, prostitutas mentais, fujais de mim. Tirai de minhas vistas seus seios endurecidos. Para que mostrar-me o sexo apenas púbere? Vem-me  o orgasmo mais ligeiro, ouvindo o grito de amor de gatos no telhado. Não me atraem teus gemidos ensandecidos pelo medo. Linda morena dos olhos apertados. Por certo, cresce-me o sexo por tua pele acetinada, que se emurchece, que se recolhe no seu leito, co´a frieza de teus passos, e a incerteza de teus laços.<br />
                    Horus tinha entrado na casa sem que ninguém percebesse. Deitara-se. Olhos voltados para as telhas. Os tios tinham saído. E as garotas da cidade invadiram a casa perguntando pelo primo à prima. Horus, o ouvido atento às vozes. Gargalhadas. Trá, lá, lá,lá. Káska, hrob, Adad, rad, krk, kriz, krutý, krásny, slepý, mrtev, tev. Ya,Y,  Yô,  Ka, Ki, Pin, Pó. Egon.  Amem.<br />
                    La blonde tem bunda mole. La brune tem bunda grande. Tanajura que me ama.<br />
                    Morrem as vozes. Mrtev, tev. Výkrik, krik. No seu peito a angústia. Abre o livro. Resolve estudar a primeira questão. Um divórcio. “O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges,” dizia o Código Civil. De nada adiantou o divórcio. Continuam os dois agarrados um ao outro pela lei.  Inda uma imposição religiosa. Pensa. Será deputado. Fará um projeto de lei estabelecendo o casamento por tempo determinado. Não é uma sociedade como outra qualquer? Criará a poligamia. Não teve Salomão setecentas mulheres principais e trezentas mulheres concubinas? A poliandria também, assim era na Palmares de Ganga Zumba e Zumbi. As mulheres,  bem visto, tem vontade de dormir com mil homens.<br />
                  Que fazer agora? Ao compadre Hugo, uma carta escreverá. Dorotéia vai à guerra. Peça do mineiro Carlos Alberto Ratton e dirigida por Álvaro Guimarães. Nonato Freire, Dorotéia. Lola di Laborda, Madalena. Produção, Eduardo Cabus. Ah, sim. Você tem de ver. Comédia um tanto quanto erótica, violenta e de amargo humor. Dorotéia (Nonato) - velha octogenária - vive com sua filha Madalena num isolamento quase total. Esta é o sustentáculo da velha: Trabalha numa firma de contabilidade. Dá comida à “mãezinha”,  lê as noticias do dia, liga-lhe o rádio, ouve suas queixas, dá-lhe o  remédio, ajuda-a a fazer xixi, é enfim, o elo de ligação com o mundo. É a vida em oposição à morte. Dorotéia é autoritária, importunante, irônica, gozadora, sarcástica, egoísta, mentirosa e ladra.<br />
                 Madalena é honesta, trabalhadora, obediente e ingênua. É lendo as noticias para sua mãe que descobre a traição de seu chefe. Casara-se com outra. E ela o ama. A própria mãe contribuíra para sua desgraça: revelou ao seu chefe o seu maior segredo. Não era mais virgem. E madalena cai numa realidade que ela teimava em não admitir.<br />
                  Personagens e atmosfera são Beckettianos. A linguagem e situações rendem homenagem a Ionesco. Obra original, entretanto, pelo que tem da alma brasileira.<br />
                   Álvaro Guimarães conseguiu situar-se bem entre os dois pólos da obra: Humor e violência. O equilíbrio foi total. E neste ponto, acredito, tenha o diretor superado o autor. A mão mágica de Alvinho evitou exageros, fez rir e deu seriedade ao grotesco. O ritmo imposto ao espetáculo é admirável. Vai num crescendo tão suave que não se adivinha o paroxismo a que chega no final. A ambientação nos encurrala num hospital onde tudo cheira a velhice, doença e abandono. Nonato Freire apreendeu todas as lições  de seu diretor, e foi uma Dorotéia humana, divina e diabólica.. Lola di Laborda um pouco reticente, mas esteve à altura de responder aos fluidos emanados de Nonato.<br />
                  Vi-o no último fim de semana que passei em Salvador, você deve ir vê-lo, é um espetáculo gostoso de se ver. Não posso acreditar que suporte isto aqui por muito tempo. Irás ver que muita coisa vai acontecer para diminuir o tédio, mas, valerá a pena?<br />
                   A cidade não é grande, nem rica, mas daria para ganhar algum dinheiro se a justiça funcionasse. O juiz mora na capital e só vem à comarca uma vez por semana. Há um ônibus  que chega quarta-feira. O juiz  vem, em geral, neste dia. Mais ou menos às onze horas, o motorista para bem em frente ao cartório onde também reside o escrivão. Desce o baixinho, que aqui  é conhecido como Baiúca, e vai direto ao cartório. O escriba o espera.  - Rosa vai buscar a cerveja do doutor, diz para secretária. O escrínio do meritíssimo tem uma gaveta onde o serventuário coloca a botelha  da cevada de cuja fermentação o magistrado costuma molhar a toga. Traça um traço, traga um trago. Algo como tocar fogo n´água ou dizer miolo de pote.. Despachos que não despacham, mais complicam que despacham. Não são  despachos, são ebós mesmo. Mais fácil, aliás, livrar-se de um ebó que de seus despachos. Põem as partes numa encruzilhada tão grande que nenhum  tranca-rua é capaz de fazer tanto. Os processos ficam assim, indefinidamente parados, porque não há quem possa  interpretá-los.<br />
                   O escrivão, trata-o muito bem, porque, dizem, lê na sua cartilha, pois só dá despacho  realmente eficaz quando o processo é de seu interesse. É verdade, o tal escriba advoga. E advoga para os dois lados. Existem aqui dois rábulas. Dois velhos rábulas. Nada sabem de direito.  O escrivão faz as petições e eles as assinam e assim, o escrivão passa a ganhar dos dois  lados, pois dos honorários fica com a parte do leão e solta as migalhas para os rábulas que se limitam a assinar as petições. Assim conseguiu fazer fortuna. O tribunal sabe disso, mas não toma qualquer providência. O juiz, este, nem se fala. Até inteligente, mas completamente envilecido. Vive na sombra do serventuário.  Disse-me que há dez anos  não pega num livro. E precisa você ver com que orgulho fala disso. Além da cerveja, sua outra amiga é a cachaça. O pessoal colocou-lhe o carinhoso apelido de Dr. Baiúca, nome de uma cachaça muito apreciada na região. Ele até gosta deste apelido. E é por isso que a comunidade o assimila já que, a pinga é, nesta terra, o melhor meio de se fazer amigos e a caninha vai se tornando, de  longe, o produto brasileiro mais representativo, entre todos que aqui produzimos. Bem que poderíamos modificar a bandeira brasileira: Toda branca com uma garrafa e a inscrição: “Viva a cana”. Não foi  a cana um dos nossos maiores produtos de exportação? Não adoçamos a Europa por longos anos?  Não enriquecemos nossos usineiros com a caninha? Ah, sim. Ia-me esquecendo. Hoje temos o futebol que arrasta as multidões, anestesiam suas mentes. Mas a cachaça é que molha a bola  que joga para os Peles, os cruzados amealhados por cholos e mulatos à custa de pão e feijão.<br />
                   Mas, na linha do juiz, existe aqui um tal de Oto, que de tanto beber,  já não se emborracha mais, porque dizem, se tornou borracho com o primeiro gole e nunca mais ficou são. Dizem até que a bebida lhe faz bem, porque lhe mantém vivo e faz milagres. Faz o milagre de, sabendo-se que fala, não se entende o que diz, e ao escrever, não se lê o que escreve. O juiz não o  repreende com medo de ser-lhe jogado  na cara vicio maior, pois  corre boato de que também é bicha. Um xibungo juiz. Mas  que defeito há em ser baitola? Todas as profissões têm direito a ter  seus maricons, não tem? Que importa se ele desmunheca ao proferir seus despachos? O importante é que façam justiça. Se a justiça é cega, também pode ser um schwul. Moral ilibada para que? Só para  entrar na magistratura? Depois, solta-se a franga.  Não há mal nenhum nisto. O que se precisa tirar da magistratura é o excesso de poder. Serei deputado. Apresentarei um projeto de lei emendando a Constituição retirando da magistratura a vitaliciedade. Não é vergonhoso que no final do século vinte, tenha alguém ainda com direito a cargo vitalício?  Sou favorável à rotatividade de qualquer poder. O homem não pode ficar, indefinidamente, no mesmo cargo. Estou estudando a possibilidade  de desenvolver uma tese provando que a rotatividade dos cargos públicos é a única  maneira  de se combater a corrupção. Ninguém deverá permanecer por mais de cinco anos no mesmo cargo ou função. Nem mesmo um policial. Acaba-se com o carreirismo até nas forças armadas. Assim, ninguém abusa do poder que lhe é dado com a função. Da mesma maneira, ninguém poderá ter a política como profissão. Será proibido alguém se reeleger para  qualquer cargo ou função. Os juízes, por exemplo, seriam eleitos para um período de cinco anos, e, terminado o mandato, nunca mais poderiam ser juiz. Os desembargadores e ministros idem. Não seria a maneira mais eficaz contra corrupção? Você poderia ser vereador uma vez só, prefeito idem, e assim por diante. Qual o delegado teria a coragem de cometer uma arbitrariedade, sabendo que  só tinha cinco anos para cometê-las e depois pular  fora?<br />
                 Como devo terminar? Não agüento mais, Morfeu vem chegando. Bom que você possa me aturar. Não sei até que  ponto serei advogado. Meu caro Hugo, Não sei se você concorda comigo de que somos mais artistas que advogados. Inda sonho dar continuidade à nossa sociedade, que só ficou no papel, e começar a produzir publicidade, arte e sobrtetudo cinema. Inundar o Brasil com nossas produções, ganhar dinheiro fazendo o que a gente gosta. Produzir dos Glauber aos Mazzaropi. Sem preconceito. Fazer rir, chorar e pensar. Você lembra da Exceção e a Regra na qual fiz o soldado e um juiz? Esta é pra pensar, como todo o trabalho de Brecht, mas quem me impede de fazer o mais baixo dos pasquins? Fazer arte para a elite é fácil, até porque ela é que tem dinheiro para freqüentar o teatro, mas o pobre? Este não irá ao teatro, porque tem até medo da palavra. Logo o teatro é que tem de ir a ele. E como? Com peças fáceis, ágeis, dinâmicas e engraçadas. Não importa o tema, por enquanto, o importante é mostrar a ele uma outra forma de ver o mundo. Dentro de uma temática a mais reacionária possível você pode lançar um raio de luz em direção à sua libertação. No caso de Brecht, sua teoria do distanciamento, dificulta, acho o entendimento do povão, acostumado a emocionar-se com as novelas televisivas, e, mesmo jogando com linguagem de fácil entendimento, como fez Hackler na sua direção, ainda acho melhor jogar um pouco mais de emoção para atingir o povão. Mas, te digo, valeu e valeu muito aquele trabalho. Pena que visto por tão pouca gente que foi ao nosso heróico Vila Velha. Você notou o dialogo entre mim e os personagens de Alberto Martins e Reinaldo Nunes? Você notou o vigor do velho  João Gama? Que pérola de ator. Se fosse americano, estaria atuando na Broadway e Holywood e seria conhecido no mundo todo, mas no Brasil, coitados dos atores.<br />
                   Horus, Horus. Que te passa pela cabeça? Os olhos chamejam. Gare  du Nord. Meia-noite.  A  busca do hotel. Luzes em sua noite. O frio gélido em sua cara. O andar português em terras de  luízes. O andar brasileiro na terra dos francos. Seu olhar moreno sobre a blondice daquela gente. O bar. Os bares. Seu primeiro trago. Um grogue. Conhaque com café. Esquentar o frio. O fumo, não da paz, da solidão, tragado. Não. Não são quengas as meninas ali fumando. Estudantes, secretárias, coiffeuses, jovens e maduras. Ouvir Brassens, Trenet e Ferré. Vivem a noite em Paris.  A vida na Gália.<br />
                   O olhar pendurado nos teus olhos. Azuis, verdeazuis como o mar de minha terra. Teus cabelos mays. Oh Chantal, mair Chantal.  Fala que te quero  ouvir. Canta, dulce voz em meus ouvidos. Diz uma canção de ninar. Eu tenho sono. Eu só quero te ouvir. Até dormir e voar e voar.<br />
                  A voz de Gandra. Estás a dormir, pá? Fala o português e anda. E me acorda de meu sonho.  E anda, e ando, andro. As folhas no chão, sob meus pés caídos. A volta à estação. O banco, o chão, o sono e o sonho.<br />
    <br />
                                                 El Carmo</blockquote>

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			<dc:creator>El Carmo</dc:creator>
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			<title>Noite em paris</title>
			<link>https://www.online-literature.com/forums/entry.php?9795-Noite-em-paris</link>
			<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 04:46:20 GMT</pubDate>
			<description>Fazia um friozinho e chuviscava. Ele parara em frente ao Eléphant Blanc. Esperar. Logo estiará. Eram, talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas,...</description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote class="blogcontent restore">Fazia um friozinho e chuviscava. Ele parara em frente ao Eléphant Blanc. Esperar. Logo estiará. Eram, talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas, também, ali. Esperavam, silenciosas, a chuva passar. Um homem baixo,  careca luzidia,  roupas modestas, parou em sua frente e de costas, coçando seus perigalhos, comentou sobre o tempo. Eterno tema das conversas dos que nada têm a dizer. Tempo, Tempo. Eró, Eró. Tempo, Tempo.  Não me comas, não me devores, meu pai. Eu quero viver. “Oh quero viver, beber perfumes na flor silvestre que embalsama os ares”.  Eternidade, te quero.  Mecânico, respondera-lhe.  Convicto, papo assim,  não inicia amizades,  e, só isto  lhe interessava, difícil fazer amigos na França,  mais ainda,  conservá-los. Como ser amigo de um clochard? De quem não tem  morada, não saber onde procurá-la nos momentos difíceis? Não. Não era um mendicante. Flanava, apenas, flanava. E se fosse, iria precisar de um cloche? Si. No. Não lhe interessavam porandubas, nem pabulices, mas batera um papo.  Incomum, alguém para papear. Sua vida transcorria em monólogos. Sem sons. Para que abrir a boca? Não havia ouvidos. Aquele homem percebera o estrangeiro. Talvez, também ele, um meteco em sua terra. Não, não era um árabe. Mourisco das tabas tupis, alóbrogo desdentado. Il n´etait pas un pied-noir. Non, il n´etait pas un mexicain, non plus. Il s´agit d´un brésilien. Le Brésil. Le carnaval de Rio. Disse ser do Sul e entender  um pouco de português porque falava um pouco do provençal, la langue d´oc. Orgulho nos olhos ridentes. Alguma semelhança entre o português e o provençal? Existe ainda,  falantes desta língua? Dela sabia apenas que tal qual o francês o u se pronuncia abrindo-se a boca para dizer ‘u’ e ao contrário dizer ‘i’, saindo um som semelhante ao ‘ü’ alemão. Acabava de aprender que bouche se diz boca como em português, une boca; Que nuit se escreve nuet, noite, e se pronuncia nué; dia não é jour mas jorn e se pronuncia dzur, pois o j e g se pronunciam dz; Ch se diz ts; Paraxítonas las palabras finitas em un, a, e, o, as, es, os. Saberá que Frederico Mistral, escrevendo em provençau, tornou respeitada a língua occitana. Dias virão em que lerá o Miréio: &quot;Cante uno chato de Prouvènço./Dins lis amour de sa jouvènço&quot;. &quot;Canto uma jovem da Provença. E seu amor de juventude&quot;. E lerá um dia a súplica dirigida ao rei René em 1474: Très soveyran et tres haut prince, A la vostra sacrada real majestat, humilment et devota si expausa...&quot;<br />
Uma rajada de vento e água. O velho recuou tocando-lhe. No sexo. Entendeu tudo. Não era isto que estava procurando. Tinha estado em alguns bares, mas não fora posto em almoeda. Não estava em almunada. D´Alliance Française, no Boulevard Raspail, onde estudava e lavava pratos, fora ao Trait-d´Union, na Rua de Rennes. Sorveu o primeiro trago. Traçar  destino  para a noite. Daniel,  coxo, cochon não, dançava a bandeja em suas mãos, gritando comandas, pedindo  contas, agradecendo  gorjetas. Estivera na Buate Grise. Ouvir cantar Pernambuco. Passara n´A Feijoada, Quai de l´Hotel de Ville, onde fora mirmidão e escanção, por vezes. Dar um abraço em Normando, rir das piadas de Claude e das reclamações de Madame Faure, implicando com ele, Claude. Pardon madame, pardon, dizia o garçon saído dos Halles, amantapaixonado  pela bela. Cantar a bossa nova que Normando lhe ensinara a tocar, nas folgas de segundas, d´A feijoada.  Ensaiara cantar: &quot;Guarda a rosa que te dei, esquece os males que te fiz. Timidez?. O pianista, da Martinica negro, reclamava sempre. Fora de ritmo. Falta de ritmo é timidez, ou um  problema de respiração? Não seria justamente a música capaz de curar a timidez?  Bela voz, ritmo atropelado. Tinha a compreensão e o carinho de Pernambuco. Bebera, bebera e bebera. Não lhe olhavam as loiras nem as morenas. Em vão. Tímido para a abordagem. Sozinho mais difícil a conquista. Não era um pédé. Não. Ele não dissera isto. Queria apenas sucer sa bite. Não. Aqui na rua, descaradamente assim? Qu´il n´y avait personne. Tous sont rentrés. L´Elephant Blanc fazia congé, nesta noite. Seus fregueses foram beber em outra freguesia o grogue reconfortador. Não, definitivamente, não. Iria voltar a seu quarto. Seu runcó. Subiria os sete vãos de escada do 16 rue d´Assas. Dormindo estaria Madame Zurflux e seu fiel kiki. Dormindo estaria Mademoiselle Zurflux. E Concepción, a solícita ménagère. La concierge botaria os olhos para ver quem estava entrando. Nunca dormem as concierges. Poria um disco na vitrola. Aquela que lhe presenteara a namorada, dedicada esposa do italiano. Lembraria o dia em que a conhecera ao comprar-lhe amendoim na avenida Saint Michel. Est-ce-que vous jouez de la guitarre? Por acaso tocava, sim, violão. Claro, dar-lhe-ia aulas de violão. Talvez não tocasse tão bem, não fosse capaz de tocar-lhe o Concerto de Aranjuez. Ou igualar Turíbio Santos num Estudo de Villa-Lobos. São Turibio, não o de Mongrovejo, apóstolo do Peru. O do violão, admirado e louvado em todo mundo. E que dizer de Baden Powell, o mágico do pinho? Baianinho, bota aí uma dose daquelas. Preparar a garganta pr´aquela feijoada caprichada. Saberia, planger as primeiras notas.  Só as primeiras notas. Um ré menor, um lá menor, um mi menor. Os tons menores são mais românticos e mais tristes. Os tons dos apaixonados. A música de quem tem dor de cotovelo.<br />
Sim, subiria ao seu quarto. A camarinha como dizia Nanã. Lembraria o verde mar bravio de sua terra, azulverdelaranja, ai, sonho imberbe do noviço, recém-saído do Vieira, colégio dos jesuítas, revindo de Itambé, ninho vocacionista, onde fora jogado pela Ordo Fratrum Minorum Cappucinorum da Província da Piedade da Bahia. Volto para ti doce  amour de ma jouvènço. Oxalá, esteja eu vivo após esta travessia, Inch-alah. Lembraria teus cabelos cor de oiro, o sorriso qu´eu queria conquistar à ponta de espada. Ai. Lembraria o dia do não no Duque,  na garganta preso o choro,  mãos frias e corpo em transe,  mundo  em giro e voz caindo,  vertigem, surdez e raiva, amor ferido  e  orgulho, caminhando rua afora, rua aqui rua acolá, aula de latim perdida, ruas estreitas e negras faces, na multidão escassos passos, cores pardas, cinzas, negras. Nem voz, nem som, nem sinos de igreja. Mar revolto, águas de março, Ab7.  Teu fantasma. Pisa m´ia sombra, toma meu pulso, meu coração assalta. Ai Mar, tão longe e tão presente, ai, doce mar, quem te acalma, doce mar de minha terra natal, mãe e pai de todos nós, aplaca tua ira, águas de março, Bb7/E.  Ai, primeiro grito de amor, vence as barreiras do som, diz a ela que de longe, pode morrer a voz, pero não o sentimento, que veio sem ser pedido, mas aqui vai transmitido, como cantigas de amigo de um trovador solitário. Conta-lhe d´estranhas terras,  andanças, desencantos e encantamento, fome, fadiga e frio. Das noites de bar em bar, procurando sem achar, um cálice de vinho amigo. Conta-lhe esta odisséia, como Enéias contou a Dido. Ai marvada não  me devores. Posso contar tua história.<br />
No seu quarto, tomaria um copo de Porto. Esquentar o frio. Deitar-se-ia ouvindo tranquilamente Mozart. O Divertimento em ré maior, K334, do poeta que em l779, na velha Salisburgo, num rasgo de inspiração, compôs para o deleite da posteridade. Era cedo. Ainda não passara o leiteiro. Dormiria um pouco e voltaria à rua. Buscar sua cota de leite na mercearia. Não. Não era um clope. Não era um ladrão. Hermes, o Trimegisto, sabe disso, mas  há de protegê-lo. Fazia sua redistribuição da riqueza. Não como Robin Hood, porque não havia Ricardo, nem coração de leão, nem selva para salvá-lo, e sim para perdê-lo de miríades corações de pedra. Os franceses entregam o leite nas padarias e mercearias na madrugada. Como nas residências, deixavam os pacotes empilhados em frente à porta. Pegava sua parte todas as noites. Era preciso comer. E comer exige luta. A arma do fraco é o ardil, senão morre. Toda arma é lídima, se prá salvar a vida. Deixar passar aquele casal de namorados, levém um clochard, atrás mais outro, mais outros, como cáfila, andam. Em seu quarto lhe esperavam a baguete e a manteiga, esta, surripiada no marché à cotê. Não tremer como lhe dizia o amigo Luiz. Se tremer o francês vê, como quase viu no dia em que roubaram chocolate no mercado. Ou no dia em que te pegaram roubando um livro de Pierre George. A mão do segurança sobre teu ombro. Não. Não tinha esquecido nada. A prova do furto. O livro sob o capote. O caminho para delegacia. O caminho para seu quarto. Os gritos dos policiais. Inda bem que não viram a navalha, arma da capoeira, camuflada n´algibeira. O aljube seria certo, oh meu Deus,  Deus meu, me valha. Polícia, igual em todo mundo. Como bem disse Maradona, (não se leia marafona),  imbecis há em toda parte. Não mataram Sacco e Vanzetti? A deportação, que medo.  A Volta,  vergonha, vencido. Por-lhe-iam num barco de terceira. A viagem, a náusea e a chegada. O vômito voando sobre si, caindo no mar profundo, pede vênia velha senhora. Me desculpe, lhe desculpa. Vomitar também vomita sobre o  azulmarchando canal. Dom Quixote não mancha, de la Mancha. Que perguntas que tu lhe  fazes? Que perguntas tu lhe fazes, Paris?  Luzes suas, saudade. O bulício de seus bares.  Aprendiz, sofrido, males.   Vinho, fumo, e  cer. Veja. Lembranças d´ Aroeira.  Chico de Anjo, do Paraná, chegando. Desce mais uma,  João. Tome-lhe cerveja quente. Geladeira, coisa rara no sertão sem energia. Gritam, assustadas, mulheres desacostumadas. Virge, marguenta  bicha, virge, até mijo parece, crendeuspadre. Un demi. Un panaché. Dizem  os franceses  saboreando-a sem parar. As discussões. Cinema, teatro e literatura. E política e política e política. Daria tempo de avisar a Chantal? Dar(get)-lhe-ia o violão,  o berimbau. Um regalo. Devolveria a radiola a Louise. Que brigasse o italiano bigodudo quarantene. De bigode entendia desde os tempos do Vieira. Bigodinho, professor de matemática, não assustava ninguém. Só padre Hugo, com suas equações, infligia terror à turma apavorada. A máquina de escrever, deixaria para Novelli, se Alberto Sergio não a tivesse comprado. Que deixasse os pincéis por um momento. Escrever um poema. Os livros de política para o Ortega. Fazer, com seus camaradas sandinistas a revolução na sua Nicarágua, derrubando o ditador Somoza e sua Guarda Nacional. Não esquecer. Poesia e teatro para  David,  neozelandês que não é maori, galego de zói azul, despido de tatuagens. Perdoá-lhe-ia por não lhe ter apresentado a petite allemande? Quanto infantil fora ele, quando juntos comeram moules, em Fontainebleau foram parar, ainda moles do vinho, quando simplesmente poderia, parar na cama com ela. La petite allemande. De vero não sabia, que a ela se referia David. Perdoar-lhe-ia por isso? Também ele nada fizera. Ficou na garganta o desejo. Dupla timidez ou tripla. Nem ele, nem ela, nem eu.  Tamáriki, &#257;e, tamáriki. Crianças, apenas crianças, soa o maori da Polinésia. De cinema, os livros para Iushiro. O zapon agradece. Arigatô. Saudades de Ikuko na libertária Amsterdão, das tulipas, das papoulas, de Bento Espinosa. Quem te disse que não te quero hana flor d´Oriente? Tu, meu hanami querido. Sinto não te ter tido em meus braços, escondida na tua timidez. O tempo, comedor de gente, passa e com mil línguas, qual medusa,  nos arrasta, garganta sua profunda, em caminho sem saída, sem volta, sem retorno. Viver é agora, dizia sem convencer nem a si mesmo. Quando iria rever amigos deixados lá? Seu berimbau? Talvez o único existente em toda Paris. Quanto deve a seu berimbau. O toque n´A feijoada de Madame Faure e o toque em Brigitte. Brigitte Bardot, Bardot. Brigitte beijou, beijou. Lá dentro do cinema todo mundo se afobou. Seus passos,  trejeitos dança amizade. Quer dançar comigo? Ensina-me dançar o samba, ouvi de sua voz. Je veux samba, Je veux samba, oui,oui,oui,oui,oui. Ai. Brigitte, bela marvada. Ammite, devoradora de homens. Despedaça coraçõesvadim que despedaçava corações em todo o mundo.  Bastava ver uma foto sua, um filme onde as linhas ondulantes se mostrassem mais sinuosas qual um rio preguiçoso ondeando no vale sem fim. Vence a fera, a fera vence. O verbo cortado na garganta. A bela encanta. O encanto do caminho da serpente que se não desencanta, sob  olhar e giros do dervixe. Olhos grudados na sua boca entreaberta para o mundo. Cunhã maira, feiticeira d´além mar. Vaporosa Brígida. Dá teu Grito no Silêncio. Perdido n´amplidão do espaço, ninguém te ouvirá. Retorna aos anos de glória e glamour. Não sejas  mensageira do mal, arauto da discórdia como Isfet. Quando morreres e te apresentares no Salão de Julgamento perante os Deuses, teu coração pesará mais que a pena de Maat que te enviará para seres devorada por Ammit, a devoradora de humanos. Ele não sabia que um dia ela iria lançar seus dardos contra imigrantes, negros, mestiços e mulçumanos. Que seu furor pela defesa dos animais era um disfarce para esconder sua xenofobia e seu desprezo pelo ser humano. Que um dia ela iria se preocupar mais pela sorte dos cachorros no Egito do que pela morte de pessoas na Palestina. Et Dieu...créa la femme. E criou Deus a mulher?   Defeca-te destas parvoíces  Madame Brigitte Anne-Marie Bardot. Que desprezo. Camille Javal, tu não irás à guerra, BB. Lembrou-se de seu berimbau, seu gunga.  Gunga Din não. Seu gunga, o de biriba, não o traírindiano   Kipling.  Como o amava, e as cantigas ensinadas por seu mestre Canjiquinha, invencível no toque do berimbau. D´outro mestre, Waldemar.  calça branca, quadriculada camisa, no pescoço, vermelenço, en su cabeza, baêta. Esse Gunga é meu, eu não dou a ninguém. Esse gunga é meu, foi meu Deus que me deu. Esse gunga é meu. Panha laranja no chão tico-tico. Adeus, adeus, boa viagem, eu vou m´bora, boa viagem. Seu berimbau, seu toque. Angola rastejando como cobra. São Bento Grande veloz, Bento Pequeno manhoso, Angolinha astucioso, Samango, olha a polícia rombora. Seu Berimbau, seu abre-te Sésamo. Se ele estivesse ali. Delindo esperanças, o delegado interroga. O encanto da serpente. Grito, grito, munch gritos, não na ponte, na polícia, mais terror. Como pode? Um estudante de direito, ladrão, como pode? As lágrimas, não, de crocodilo, veramente lhe corriam. Não fora educado para o mundo, o mundo de aparências, mas d´essências. É muito mal, pois não aprendeu a regra do jogo, não ganhou régua e compasso. E sofre quando outros riem e gozam, gozam e riem. Nem imaginaria que um dia iria sofrer por uma formação ferrenhamente cristã, em que se cultivara o amor, o respeito e a honestidade. Nunca imaginara  ser atacado um dia, justamente por pessoas desonestas e violentas, que confundem humanidade, retidão de espírito com babaquice e covardia. Não era um cobarde. Ê Mundacho Torto, profundo baixo, gigante, frei capucho Teodoro, ouço-te de Bach Toccata e Fuga, na Piedade em Ré Menor. Me ensina cantar o Réquiem, de preferência Mozart. Me ensina contar o tempo, somar, multiplicar, solfejar, multiplicar. Ali estava  o princípio. Aqui  seu primeiro pleito.  Puxa da pena  o perdão. Deliu-se o furor policial. Vence a emoção, cala a razão. Vencer, venceu,  mas será sempre assim? Prejudicada, quase, a prova de Geografia do professor Pierre George, no Boulevard Arago. Ah, meu caro mestre, conhecedor do mundo inteiro, se tu soubesses  o quanto é duro nascer no Nordeste Brasileiro. Inventam os gregos a tragédia que o nordeste vive agora, com seus beatos e devotos, cangaceiros e jagunços, cantadores e pade Cíço, secas, fugas e paixões. Sant´Esquilo. São Sófocles. Sant´Eurípedes.  Orai por nós que recorremos a vós. Não. Sê firme. E viverás. Mesmo que nem tenhas tido teu primeiro amor  de juventude. Mesmo que te tenhas recolhido ante a estonteante Brigitte. Mesmo que não tenhas  tido em teus braços a bela flor d´Oriente. Mesmo que te tenhas calado ante a petite allemande. E os olhos de Chantal? Je te kiffe trop grave. Seu sorriso em noite extrema, na dança do carnaval. Tu a tivestes, afinal? Mesmo que não. Mesmo que. Ai, marvada sorte fortuna, por que tu não me escolhes Ganeça, filho de Pavarti, deusa, de Shiva esposa?  Por que tu me deixas nos braços do malvado Elegbará Set Exu? Por   que   tu não me levas, Onipotente Zeus, pra no Olimpo servir, tal  como tu levastes o troiano Ganimedes? Não. Sê firme. E viverás.<br />
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(Conto publicado  na Antologia Scortecci de Poesia, Contos e Crônicas, 2009, Scortecci Editora, S. Paulo)<br />
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<a href="http://el-carmo.over-blog.com/article-20732503.html" target="_blank" rel="nofollow">http://el-carmo.over-blog.com/article-20732503.html</a>, em 25.08.2008, sob pseudônimo El Carmo</blockquote>

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			<dc:creator>El Carmo</dc:creator>
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