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El Carmo

O banco, o chÃo, o sono e o sonho

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O BANCO, O CHÃO, O SONO E O SONHO

El Carmo

Mairi. Quase trezentos quilômetros de Salvador. É verão e o ônibus chega afinal. Meio-dia. Horus, intranqüilo, desce na tranqüila cidade. Curiosos apenas observam pelas janelas. Abram as jinelas belas donzelas.
Batia Meia-noite. O frio de outono no seu rosto. Folhas, sob os pés, caídas. Gare du Nord. Noite em Paris, primeira.
Achou a casa do tio. E entregou a carta do pai a Costinha Jururu. Que se encarregasse de apresentá-lo à cidade. E o soldado Paulo Cobra, que não é norato, mas cutibóia como o cipó, (E não Koba, para que não lhe chamem de Stalinista), arranjou-lhe a primeira questão: Um divórcio.
A carta do português a Kertzer: “ Leva ele muita coisa na cabeça e mais no coração. Merece sua ajuda”. Retira das vistas o papel e diz ao retirante, não ser Paris lugar pra gente sem dinheiro. “Volte para o Brasil, se não quiser morrer”. Sentenciou o judeu.
KaRa de fome e sorriso nos olhos de seu povo. E língua esfarrapada em seu ouvido. A voz do sertão, como o canto do assum preto. O sábado menino. Comprava rapadura de dois´tões. Furtava farinha nos sacos para misturar. Ô m´min, danado. Agora. Os olhos curiosos do roceiro. Seu traje, seu trato. Uns chegam a reconhecer o filho da terra. E outro a lembrar-lhe o grau de parentesco. A busca da identificação. No cartório de Adsio Leal, o dialogo da iniciação nas coisas da justiça. A sarará arrasa.
- Padinho, o sinhô num pode impedir que eu receba o que é meu. Não sou mais u´a criança. O sinhô só tem me prejudicado o tempo todo. Quero tomar conta do meu.
O escrivão. Da puridade, nunca.
- Sujeitinha mal agradecida. Devia lembrar-se de quanto eu fiz por você.
A sarará. Mulher. Mulher-mulher.
- Sujeitinha. E o sinhô? Um ladrão. Covarde. Correu da polícia federal. Comunista. Ladrão. Se ajoelhou nos pés do capitão. Chorão.
O bacharel baixou as vistas, envergonhado. Cala o escrivão sentado em sua ira. Não agüentou aquela menininha-catapulta. O escrivão de justiça. O benfeitor da cidade. Já fizera muito por aquela gente, dizia. Todos aqui me devem alguma coisa. Isto aqui era uma tapera. Não havia estradas. Cheguei há vinte e sete anos, em lombo de burro. Assumi o cartório. Estudava até altas horas da noite. Aqui eu era tudo, porque todos eram praticamente analfabetos. Era ao mesmo tempo escrivão, delegado, juiz, promotor, advogado, professor, enfermeiro, farmacêutico, enfim, tudo. Fazia tudo. Um recibo, uma nota promissória. Me pediam, fazia. Uma petição, tudo, enfim. Era o conselheiro. Fazia as pazes entre marido e mulher. Entre amigos que brigavam. Tudo era eu. E ainda sou. Fiz o ginásio. Trouxe a luz. A estrada. O banco. Tudo fiz. Tudo faço. Tiro Juiz. Promotor, fica quem eu quero. Advogados. Todos me seguem. Sei tudo de justiça. Nunca perdi uma questão. O advogado que segue minha orientação não perde. No tribunal todos me respeitam.
- Você é um menino inteligente. Gostei de você. Conte comigo. Estou aqui para lhe ajudar, como ajudei os outros que estão bem na capital. Como ajudei juizes e promotores que agora são desembargadores e procuradores. Todos que passaram por aqui estão bem. Eu os modelei, siga o exemplo deles. Abriu os braços paternais.
- Jovem andante e aventureiro, que te vai pela cabeça? Mocinhas casamenteiras. Não estou para vocês. Que digam que me querem, que me amam. Que sou gostoso, um gato. Seus sexos medrosos e incompletos não me satisfazem. Virgens apavoradas, prostitutas mentais, fujais de mim. Tirai de minhas vistas seus seios endurecidos. Para que mostrar-me o sexo apenas púbere? Vem-me o orgasmo mais ligeiro, ouvindo o grito de amor de gatos no telhado. Não me atraem teus gemidos ensandecidos pelo medo. Linda morena dos olhos apertados. Por certo, cresce-me o sexo por tua pele acetinada, que se emurchece, que se recolhe no seu leito, co´a frieza de teus passos, e a incerteza de teus laços.
Horus tinha entrado na casa sem que ninguém percebesse. Deitara-se. Olhos voltados para as telhas. Os tios tinham saído. E as garotas da cidade invadiram a casa perguntando pelo primo à prima. Horus, o ouvido atento às vozes. Gargalhadas. Trá, lá, lá,lá. Káska, hrob, Adad, rad, krk, kriz, krutý, krásny, slepý, mrtev, tev. Ya,Y, Yô, Ka, Ki, Pin, Pó. Egon. Amem.
La blonde tem bunda mole. La brune tem bunda grande. Tanajura que me ama.
Morrem as vozes. Mrtev, tev. Výkrik, krik. No seu peito a angústia. Abre o livro. Resolve estudar a primeira questão. Um divórcio. “O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges,” dizia o Código Civil. De nada adiantou o divórcio. Continuam os dois agarrados um ao outro pela lei. Inda uma imposição religiosa. Pensa. Será deputado. Fará um projeto de lei estabelecendo o casamento por tempo determinado. Não é uma sociedade como outra qualquer? Criará a poligamia. Não teve Salomão setecentas mulheres principais e trezentas mulheres concubinas? A poliandria também, assim era na Palmares de Ganga Zumba e Zumbi. As mulheres, bem visto, tem vontade de dormir com mil homens.
Que fazer agora? Ao compadre Hugo, uma carta escreverá. Dorotéia vai à guerra. Peça do mineiro Carlos Alberto Ratton e dirigida por Álvaro Guimarães. Nonato Freire, Dorotéia. Lola di Laborda, Madalena. Produção, Eduardo Cabus. Ah, sim. Você tem de ver. Comédia um tanto quanto erótica, violenta e de amargo humor. Dorotéia (Nonato) - velha octogenária - vive com sua filha Madalena num isolamento quase total. Esta é o sustentáculo da velha: Trabalha numa firma de contabilidade. Dá comida à “mãezinha”, lê as noticias do dia, liga-lhe o rádio, ouve suas queixas, dá-lhe o remédio, ajuda-a a fazer xixi, é enfim, o elo de ligação com o mundo. É a vida em oposição à morte. Dorotéia é autoritária, importunante, irônica, gozadora, sarcástica, egoísta, mentirosa e ladra.
Madalena é honesta, trabalhadora, obediente e ingênua. É lendo as noticias para sua mãe que descobre a traição de seu chefe. Casara-se com outra. E ela o ama. A própria mãe contribuíra para sua desgraça: revelou ao seu chefe o seu maior segredo. Não era mais virgem. E madalena cai numa realidade que ela teimava em não admitir.
Personagens e atmosfera são Beckettianos. A linguagem e situações rendem homenagem a Ionesco. Obra original, entretanto, pelo que tem da alma brasileira.
Álvaro Guimarães conseguiu situar-se bem entre os dois pólos da obra: Humor e violência. O equilíbrio foi total. E neste ponto, acredito, tenha o diretor superado o autor. A mão mágica de Alvinho evitou exageros, fez rir e deu seriedade ao grotesco. O ritmo imposto ao espetáculo é admirável. Vai num crescendo tão suave que não se adivinha o paroxismo a que chega no final. A ambientação nos encurrala num hospital onde tudo cheira a velhice, doença e abandono. Nonato Freire apreendeu todas as lições de seu diretor, e foi uma Dorotéia humana, divina e diabólica.. Lola di Laborda um pouco reticente, mas esteve à altura de responder aos fluidos emanados de Nonato.
Vi-o no último fim de semana que passei em Salvador, você deve ir vê-lo, é um espetáculo gostoso de se ver. Não posso acreditar que suporte isto aqui por muito tempo. Irás ver que muita coisa vai acontecer para diminuir o tédio, mas, valerá a pena?
A cidade não é grande, nem rica, mas daria para ganhar algum dinheiro se a justiça funcionasse. O juiz mora na capital e só vem à comarca uma vez por semana. Há um ônibus que chega quarta-feira. O juiz vem, em geral, neste dia. Mais ou menos às onze horas, o motorista para bem em frente ao cartório onde também reside o escrivão. Desce o baixinho, que aqui é conhecido como Baiúca, e vai direto ao cartório. O escriba o espera. - Rosa vai buscar a cerveja do doutor, diz para secretária. O escrínio do meritíssimo tem uma gaveta onde o serventuário coloca a botelha da cevada de cuja fermentação o magistrado costuma molhar a toga. Traça um traço, traga um trago. Algo como tocar fogo n´água ou dizer miolo de pote.. Despachos que não despacham, mais complicam que despacham. Não são despachos, são ebós mesmo. Mais fácil, aliás, livrar-se de um ebó que de seus despachos. Põem as partes numa encruzilhada tão grande que nenhum tranca-rua é capaz de fazer tanto. Os processos ficam assim, indefinidamente parados, porque não há quem possa interpretá-los.
O escrivão, trata-o muito bem, porque, dizem, lê na sua cartilha, pois só dá despacho realmente eficaz quando o processo é de seu interesse. É verdade, o tal escriba advoga. E advoga para os dois lados. Existem aqui dois rábulas. Dois velhos rábulas. Nada sabem de direito. O escrivão faz as petições e eles as assinam e assim, o escrivão passa a ganhar dos dois lados, pois dos honorários fica com a parte do leão e solta as migalhas para os rábulas que se limitam a assinar as petições. Assim conseguiu fazer fortuna. O tribunal sabe disso, mas não toma qualquer providência. O juiz, este, nem se fala. Até inteligente, mas completamente envilecido. Vive na sombra do serventuário. Disse-me que há dez anos não pega num livro. E precisa você ver com que orgulho fala disso. Além da cerveja, sua outra amiga é a cachaça. O pessoal colocou-lhe o carinhoso apelido de Dr. Baiúca, nome de uma cachaça muito apreciada na região. Ele até gosta deste apelido. E é por isso que a comunidade o assimila já que, a pinga é, nesta terra, o melhor meio de se fazer amigos e a caninha vai se tornando, de longe, o produto brasileiro mais representativo, entre todos que aqui produzimos. Bem que poderíamos modificar a bandeira brasileira: Toda branca com uma garrafa e a inscrição: “Viva a cana”. Não foi a cana um dos nossos maiores produtos de exportação? Não adoçamos a Europa por longos anos? Não enriquecemos nossos usineiros com a caninha? Ah, sim. Ia-me esquecendo. Hoje temos o futebol que arrasta as multidões, anestesiam suas mentes. Mas a cachaça é que molha a bola que joga para os Peles, os cruzados amealhados por cholos e mulatos à custa de pão e feijão.
Mas, na linha do juiz, existe aqui um tal de Oto, que de tanto beber, já não se emborracha mais, porque dizem, se tornou borracho com o primeiro gole e nunca mais ficou são. Dizem até que a bebida lhe faz bem, porque lhe mantém vivo e faz milagres. Faz o milagre de, sabendo-se que fala, não se entende o que diz, e ao escrever, não se lê o que escreve. O juiz não o repreende com medo de ser-lhe jogado na cara vicio maior, pois corre boato de que também é bicha. Um xibungo juiz. Mas que defeito há em ser baitola? Todas as profissões têm direito a ter seus maricons, não tem? Que importa se ele desmunheca ao proferir seus despachos? O importante é que façam justiça. Se a justiça é cega, também pode ser um schwul. Moral ilibada para que? Só para entrar na magistratura? Depois, solta-se a franga. Não há mal nenhum nisto. O que se precisa tirar da magistratura é o excesso de poder. Serei deputado. Apresentarei um projeto de lei emendando a Constituição retirando da magistratura a vitaliciedade. Não é vergonhoso que no final do século vinte, tenha alguém ainda com direito a cargo vitalício? Sou favorável à rotatividade de qualquer poder. O homem não pode ficar, indefinidamente, no mesmo cargo. Estou estudando a possibilidade de desenvolver uma tese provando que a rotatividade dos cargos públicos é a única maneira de se combater a corrupção. Ninguém deverá permanecer por mais de cinco anos no mesmo cargo ou função. Nem mesmo um policial. Acaba-se com o carreirismo até nas forças armadas. Assim, ninguém abusa do poder que lhe é dado com a função. Da mesma maneira, ninguém poderá ter a política como profissão. Será proibido alguém se reeleger para qualquer cargo ou função. Os juízes, por exemplo, seriam eleitos para um período de cinco anos, e, terminado o mandato, nunca mais poderiam ser juiz. Os desembargadores e ministros idem. Não seria a maneira mais eficaz contra corrupção? Você poderia ser vereador uma vez só, prefeito idem, e assim por diante. Qual o delegado teria a coragem de cometer uma arbitrariedade, sabendo que só tinha cinco anos para cometê-las e depois pular fora?
Como devo terminar? Não agüento mais, Morfeu vem chegando. Bom que você possa me aturar. Não sei até que ponto serei advogado. Meu caro Hugo, Não sei se você concorda comigo de que somos mais artistas que advogados. Inda sonho dar continuidade à nossa sociedade, que só ficou no papel, e começar a produzir publicidade, arte e sobrtetudo cinema. Inundar o Brasil com nossas produções, ganhar dinheiro fazendo o que a gente gosta. Produzir dos Glauber aos Mazzaropi. Sem preconceito. Fazer rir, chorar e pensar. Você lembra da Exceção e a Regra na qual fiz o soldado e um juiz? Esta é pra pensar, como todo o trabalho de Brecht, mas quem me impede de fazer o mais baixo dos pasquins? Fazer arte para a elite é fácil, até porque ela é que tem dinheiro para freqüentar o teatro, mas o pobre? Este não irá ao teatro, porque tem até medo da palavra. Logo o teatro é que tem de ir a ele. E como? Com peças fáceis, ágeis, dinâmicas e engraçadas. Não importa o tema, por enquanto, o importante é mostrar a ele uma outra forma de ver o mundo. Dentro de uma temática a mais reacionária possível você pode lançar um raio de luz em direção à sua libertação. No caso de Brecht, sua teoria do distanciamento, dificulta, acho o entendimento do povão, acostumado a emocionar-se com as novelas televisivas, e, mesmo jogando com linguagem de fácil entendimento, como fez Hackler na sua direção, ainda acho melhor jogar um pouco mais de emoção para atingir o povão. Mas, te digo, valeu e valeu muito aquele trabalho. Pena que visto por tão pouca gente que foi ao nosso heróico Vila Velha. Você notou o dialogo entre mim e os personagens de Alberto Martins e Reinaldo Nunes? Você notou o vigor do velho João Gama? Que pérola de ator. Se fosse americano, estaria atuando na Broadway e Holywood e seria conhecido no mundo todo, mas no Brasil, coitados dos atores.
Horus, Horus. Que te passa pela cabeça? Os olhos chamejam. Gare du Nord. Meia-noite. A busca do hotel. Luzes em sua noite. O frio gélido em sua cara. O andar português em terras de luízes. O andar brasileiro na terra dos francos. Seu olhar moreno sobre a blondice daquela gente. O bar. Os bares. Seu primeiro trago. Um grogue. Conhaque com café. Esquentar o frio. O fumo, não da paz, da solidão, tragado. Não. Não são quengas as meninas ali fumando. Estudantes, secretárias, coiffeuses, jovens e maduras. Ouvir Brassens, Trenet e Ferré. Vivem a noite em Paris. A vida na Gália.
O olhar pendurado nos teus olhos. Azuis, verdeazuis como o mar de minha terra. Teus cabelos mays. Oh Chantal, mair Chantal. Fala que te quero ouvir. Canta, dulce voz em meus ouvidos. Diz uma canção de ninar. Eu tenho sono. Eu só quero te ouvir. Até dormir e voar e voar.
A voz de Gandra. Estás a dormir, pá? Fala o português e anda. E me acorda de meu sonho. E anda, e ando, andro. As folhas no chão, sob meus pés caídos. A volta à estação. O banco, o chão, o sono e o sonho.

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